Victor Domingos

A minha primeira "manif" - ou de como, realmente, "o sonho comanda a vida" #15SPT


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Na foto: manifestação de 15 de setembro de 2012, em Braga (foto de Rómulo Duque)


Há uns vinte ou vinte e poucos anos, estávamos nos inícios da saudosa década de 90, tive a oportunidade de participar pela primeira vez num movimento cívico de intervenção, que culminaria com a realização de uma
manif lá na escola.

Lembrei-me disto, naturalmente, a propósito da megamanifestação que hoje teve lugar um pouco por todo o País. Na altura, como agora, isto das manifestações surgia quase espontaneamente, a partir de uma certa ingenuidade nossa, mas também de um espírito jovem, revolucionário ou sonhador…

. . .


Estávamos no 5º ou 6º ano, que é como quem diz, tínhamos todos os nossos dez ou onze aninhos. Estudávamos numa escola que parecia estar a cair de velha e que, além de acusar o peso da idade, no inverno era fria que se fartava. De tal maneira que quem acabou por se fartar daquilo fomos nós. Era o frio que entrava pelas salas adentro, eram as pingas a cair quando chovia, eram as paredes que abanavam como se fossem cair quando lhes tocávamos… era a pintura, branca e amarela, suja das patadas acumuladas e do caruncho… e reza até a lenda que, um dia, a meio de uma aula, chegou a cair pelo teto abaixo um aluno que tinha ido ao telhado tentar recuperar uma bola!

Mas o frio era, sem dúvida, um dos nossos principais motivos de queixa. Queixávamo-nos aos professores, claro está, que eram os nossos únicos interlocutores com o
sistema. A maior parte deles encolhiam os ombros (mentalmente, claro está) e continuavam a dar as suas aulas, evitando desperdiçar tempo com temas como aquele. Mas havia uma ou outra exceção. E tivemos felizmente alguém que nos disse qualquer coisa do tipo:

– Eh, pá! Se vocês não estão contentes com esta escola, se querem uma escola nova, então façam uma manifestação. Recolham assinaturas, façam uns cartazes, lutem pelos vossos sonhos!

As palavras não seriam bem estas, mas nas nossas cabeças era isto que ouvíamos. E rapidamente a coisa começou a ganhar contornos. Houve reuniões de preparação, criámos uma série de cartazes, reunimos assinaturas de todos os delegados de turma da escola, a formalizar o apoio à nossa causa, e fizemos uma manifestação em frente à porta do Conselho Diretivo (era assim que se chamava na altura).

– Queremos uma escola nova! Queremos uma escola nova! – eram as nossas palavras de ordem.

Ai, se os nossos pais soubessem o que andávamos a fazer na escola!… Para muitos de nós, este ato de rebeldia podia vir a sair-nos bem caro, mas que importava?

– Queremos uma escola nova! Queremos uma escola nova!

Como da direção da escola ninguém se dignava a dar-nos uma resposta satisfatória – e também... que haviam eles de dizer, não é mesmo? – decidimos encaminhar-nos para a frente da Câmara Municipal, para aí expressar as nossas reivindicações. Começámos, pois, a dirigir-nos para o portão da escola, onde a nossa marcha acabaria sendo barrada, naturalmente, pelo porteiro. Naquele tempo usávamos uns cartões em que os encarregados de educação especificavam quais os dias da semana e os horários em que estávamos autorizados a sair da escola. Como a maior parte de nós não tinha autorização para sair àquela hora, tivemos de parar ali mesmo, em frente à cara de indiferença do nosso zeloso porteiro.

Mas não podíamos deixar essa afronta sem resposta, pelo que, durante os longos minutos que se seguiram, as palavras de ordem passaram a ser outras:

– Liberdade! Liberdade! Liberdade!

A manifestação acabou ali mesmo, junto ao porteiro. Na altura, sentimo-nos humilhados, enxovalhados, completamente menosprezados por um sistema injusto, prepotente e opressor. A nossa luta parecia ter sido em vão, e ainda por cima acabava de forma tanto ou mais precoce do que seria a nossa idade para participar nessas coisas.

. . .


Poderá ter sido coincidência ou uma obra do destino, mas a verdade é que, passado um ou dois anos, começaram as obras para a construção de uma escola nova. Quando foi inaugurada e os antigos edifícios foram demolidos, nós já andávamos no 8º ou 9º ano, numa outra escola, ali mesmo ao lado. Não pudemos, por isso, usufruir diretamente daquilo por que havíamos lutado com genuína convicção. Mas, mesmo assim, sentimos que tínhamos cumprido um dever e que, de algum modo, a nossa iniciativa tinha dado frutos. Os nossos irmãos mais novos, os nossos vizinhos e as gerações vindouras podiam agora estudar numa escola maior, onde não chovia nem fazia frio no inverno.

Percebemos nessa altura (mesmo sem conhecer ainda o célebre poema de António Gedeão) que, efetivamente, “o sonho comanda a vida, / que sempre que um homem sonha / o mundo pula e avança / como bola colorida / entre as mãos de uma criança”.

Adeus a um amigo


Nota: ler somente depois de escutar,
a modos de prelúdio musical,
a faixa “
Dia dor-mente”: Dia dor-mente

e de repente parece que tanto ficou por dizer, tantas coisas ficaram por fazer, para nunca mais. parece hipócrita, e talvez até seja… na cidade somos tantos tantos tantos e temos sempre tanto tanto tanto por fazer e nem sequer nos apercebemos de como todos os dias a todo o momento deixamos a vida escapar-nos por entre os dedos e com ela por entre eles todos os sonhos por que afinal valia a pena lutar. porque é isso que tu eras – os sonhos. porque é isso que serás a partir de agora para todos nós que te vimos partir: os sonhos.

e como é agora? como fazemos para a partir do caos, do absurdo, arquitetar e erigir uma nova matriz de significados toda ela tão lógica toda ela tão segura e tão aconchegante como aquela que num instante se desmoronou?

tu sabias que tudo continuaria igual, sem ti. sempre continua o mundo sem nós, não é?

e no entanto aqui estamos nós todos numa encruzilhada retilínea, absortos até ao nono andar da nossa incredulidade, ignorantes das teias que o acaso tece e sem saber se ainda há sonhos possíveis e se acaso houver aonde os poderemos ir buscar. como é poderosa a gravidade na sua luta com a nossa inércia!

o que nos custa é não saber onde vais e porque vais agora e não ficas simplesmente aqui. e por isso de repente parece que tanto ficou por dizer porque realmente nunca to dissemos e era importante tê-lo dito ainda que isso pudesse porventura ter sido até irrelevante no fim de tudo. não sabemos. nunca o saberemos.

mas vai. e que não fique mágoa de chorar a tua partida, mais do que a hora pede por direito. sê feliz para sempre, pelo menos na nossa lembrança… e vai, como assim ponderadamente ou não mas certamente de forma definitiva e irreversível, o escolheste. adeus…


Depois da #SOPA, da #PIPA e do #PL118, temos agora a polémica censura de livros pelo Paypal

censurado

O Paypal instituiu recentemente novas condições de serviço que têm como consequência direta a censura dos livros que podem ser comercializados online, com base em critérios de suposta moralidade mais ou menos arbitrários. Em causa está um ultimato feito estes dias à Smashwords, uma importante plataforma de publicação para escritores independentes (que eu venho também utilizando enquanto autor), em que a Paypal obriga o site a eliminar as obras que contenham conteúdos que possam de alguma forma ser considerados obscenos.

Confesso que sempre alimentei a ilusão inocente de que este tipo de ameaças à liberdade de expressão era uma coisa do passado. Que já lá iam os tempos em que se ocultava certas partes d’Os Lusíadas e se proibia a leitura e a distribuição de certos livros. Nas modernas democracias, em que a liberdade de expressão é um direito dado por adquirido, vemos afinal que a censura encontra outros meios que não o célebre lápis azul. Pelos vistos, nos EUA, existe legislação que protege os cidadãos de atos de censura como estes, mas só quando sejam perpetrados pelo Estado. As empresas privadas, como sejam os gigantes financeiros de crédito que supostamente estarão por trás desta medida imposta pelo Paypal, estão legalmente autorizadas a banir certas obras, com base nos critérios que bem entendam. Como?: utilizando o seu monopólio na área dos pagamentos eletrónicos para determinar o que pode ou não ser lido.

Para que possamos compreender a gravidade da situação, digamos que com a ambiguidade ou subjetividade das regras impostas, algumas das grandes obras da literatura universal poderiam facilmente ser banidas pela Paypal, caso fossem escritas por autores independentes e distribuídas por algum dos inúmeros parceiros de negócios da Paypal. Assim de repente, vêm-me à memória obras como “Os Maias”, de Eça de Queirós; “Os Lusíadas”, de Camões; a literatura erótica de Bocage e de tantos outros; a Bíblia, que também tem as suas passagens grotescas ou com referências a relações incestuosas; ou a “Lolita”, de Vladimir Nabokov. É um cenário orwelliano, mas menos distante do que seria desejável. Recorde-se, por exemplo, que já em 2010 o Paypal fez algo semelhante com o site Wikileaks.

Ainda que possamos reconhecer que no catálogo da Smashwords e de outros sites afetados haverá muitos títulos de qualidade duvidosa e com capas de fraco gosto, e mesmo que muitos deles utilizem linguagem ou descrições que possam ferir suscetibilidades de certos leitores, o certo é que a própria Smashwords dispõe de um filtro que os utilizadores podem facilmente ativar, para evitar o confronto com os conteúdos menos próprios. Por outro lado, para usar um cartão de crédito - associado o não a uma conta Paypal -, uma pessoa precisa de ser maior de idade - o que basicamente significa que se trata de uma pessoa capaz de pensar pela sua própria cabeça e preparada para escolher quais os livros que quer ler.

Pessoalmente, não tenho qualquer receio de que os meus livros se encontrem ameaçados - quando muito, apenas a sua distribuição pelo canal da Smashwords seria afetada. No entanto, não posso deixar de me sentir indignado com esta ação de uma grande empresa que eu sempre julgara como sendo idónea e imparcial. Parece que algumas das piores práticas medievais ou ditatoriais estão de volta, mas com nova roupagem…


Alguns links para páginas sobre este assunto:


Contra o absurdo #PL118, marchar, marchar!

pl118

Depois de refletir longamente sobre os meus sentimentos acerca do que se tem dito e escrito sobre o PL118 (também conhecido como projeto de “Lei da Cópia Privada”), acabo de assinar a petição online: "Impedir a Taxação da Sociedade da Informação". Concordo com esta petição e acho que muitos de vocês também poderão concordar.

Enquanto autor, com interesse particular na área da literatura em formato digital (afinal de contas, seria eu um dos supostos principais interessados nesta lei, não é mesmo?), não posso senão DISCORDAR da forma como se pretende legislar este assunto.

Entre muitos outros motivos, destacaria que a Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) e instituições afins não me representam enquanto autor, logo não têm a meu ver qualquer autoridade ou competência para ir extorquir dividendos automáticos eventualmente oriundos do armazenamento e distribuição das minhas obras. Para isso, roubo por roubo, sinceramente prefiro que os meus ebooks sejam piratados por quem se interesse por lê-los.

Para quem não acompanhou a polémica ou não conhece os detalhes, recomendo vivamente a consulta do blog da Maria João Nogueira (Jonasnuts), onde é possível encontrar muita informação e ligações para algumas das notícias na Comunicação Social e artigos em blogs sobre o assunto.

Autopublicação na Era Digital, no blog da Sara Farinha

A convite da Sara Farinha, que tem um interessante blog dedicado à arte da escrita, escrevi estes dias um artigo onde partilho um pouco daquilo que tem sido a minha experiência com o mundo editorial, sobretudo no que se refere à vertente da autopublicação digital. Um texto que, curiosamente, começa com fantasmas e termina com um cenário apoteótico em que eu, hipoteticamente, me torno um escritor muito famoso. Perdi o juízo, talvez…

sara-farinha-autopublicação-digital

Bem… Se vos interessar o tema da autopublicação na Era Digital, e de como do papel se passa aos livros para Kindle, iPhone e iPad, por favor leiam o artigo nesta página e decidam por vocês mesmos, se mereço ou não o internamento compulsivo. Comentários serão muito bem-vindos, como sempre!

A minha primeira experiência como poeta - a escrita como prostituição

Se me perguntarem quando foi que escrevi o meu primeiro poema, há uma recordação antiga que de imediato me ocorre. Não sei se terá sido mesmo a minha primeira experiência, mas foi uma que nunca mais esquecerei. E, para alguém que uns anos mais tarde viria a encarar a escrita de forma bem mais séria, creio que se tratou de um começo, no mínimo, atribulado…

Pintura de cena sexual, em Pompeia
Na foto: pintura de cena sexual, em Pompeia (fonte: Wikipedia)

Há vinte e poucos anos, andava eu na escola primária e teria uns oito ou nove anos, tivemos uma visita programada da rádio local. Soubemos com alguma antecedência, pela nossa professora, que a Rádio Valdevez vinha à escola gravar um programa, e nós íamos participar, com as nossas vozes e com os nossos trabalhos. Foi uma excitação geral!

Alguns de nós - ou todos, já não me recordo bem - ficamos encarregues de escrever alguns textos para o programa. Eu escrevi dois textos em verso, cada um deles cerca de uma página de quadras, com rimas mais ou menos improvisadas. Um dos textos era talvez uma espécie de ladainha a louvar a senhora Rádio, e o outro (cuja escrita eu tinha apreciado bem mais) era uma reflexão sobre o tema "Ser criança…". Na altura, embrenhei-me nessa tarefa, levando-a até bastante a sério. O poema "Ser criança…" era um dos trabalhos favoritos para o programa e eu estava satisfeitíssimo com o resultado. Não por apreciar particularmente o facto de ser então eu mesmo uma criança, mas porque de alguma forma o meu trabalho parecia fazer jus à minha sensibilidade estética.

Entretanto, um colega de outro ano comentou na aula que lhe parecia ter ouvido aquilo já algures. Nessa altura, eu devia ter ficado fulo, mas não fiquei: simplesmente reagi com uma ingénua estupefação. Reconheço, claro, que nem os temas abordados nem a forma como os trabalhei seriam propriamente o culminar de um episódio de extrema originalidade. Mas, obviamente, eu sabia que não tinha plagiado ninguém. Olhando agora para trás, creio adivinhar ao fim de mais de duas décadas que talvez esse meu colega tenha ouvido a versão musicada de um célebre poema de Florbela Espanca ("Ser poeta é ser mais alto…"), pelos Trovante, que fez furor mais ou menos por essa altura. Talvez o meu texto lhe tenha soado familiar por esse motivo, imagino eu…

O certo é que a professora não quis correr riscos e, basicamente, o meu texto preferido passou à história. Acabaria por ser gravada no programa aquela outra lengalenga que eu escrevera, mas que não me dizia nada.

Sei que ninguém teve más intenções. Nem o meu colega, nem a professora, nem eu, nem os senhores da rádio. Mas a verdade é que naquele momento me senti, pela primeira vez na vida, de uma forma desagradável e difícil de esquecer, prostituído na minha escrita.